Epopeia do Cotidiano (parte I)

Por Edson Nunes (*)


Trabalho há anos na Rua dos Timbiras, uma travessa da Santa Ifigênia – inferninho básico de pessoas – num falido escritório de advocacia, que já foi do meu tio Pedro, do saudoso tio Agenor, do trapaceiro tio Claudião, e hoje, pertence a minha problemática pessoa, esse negócio é simplesmente um membro da família Saldanha.

Bem no início, eu entrava às 9h00, e saía no máximo às 15h00, um horário tranquilo para um adolescente, na época, com 16 anos. Naquele tempo de fartura de clientes, tudo era maravilhoso e cômico, eu como um legítimo “Office-nada”, mal tinha coisas para fazer a não ser, claro, deslumbrar-se com a Tânia, secretária do tio Pedro, detentora da melhor bunda que já vi até o presente momento, em que escrevo este manuscrito – confuso e desleixado – na minha estreita sala, do lado do banheiro dos visitantes, no início do corredor amarelado, terceira porta à direita.

Qual é o meu cargo hoje em dia? Fácil de responder: Fudido Proprietário Majoritário, que ganha tão pouco, quanto exerce suas responsabilidades e funções diárias, uma espécie de mobília antiquada da advocacia “Dos Saldanhas”.

Por falar do meu querido emprego, o clássico estabelecimento está vivendo uma extrema decadência financeira, na verdade a falência é questão de tempo. A advocacia possui doze funcionários, entre eles, a Aline – minha mulher –, colaboradora mais velha dessa birosca, uma autêntica sobrevivente de guerra trabalhista, que todos os dias não esquece de frisar sua opinião de acabar com a empresa, vendê-la rapidamente, me aconselhando procurar uma nova maneira de ganhar o pão de cada dia, uma atitude arriscada nessa altura da vida, afinal, tenho 45 anos, porém essa possibilidade é a mais real e sensata na atualidade.

Confesso por meio dessas linhas mal impressas do mini caderno de terceira linha comprado por 50 centavos na banca do Felipinho, que sou formado em porra nenhuma, muito menos em Direito, porém todos acham que sou. Legal isso, né? Olha o sarcasmo, meninão!

Continuando a narrativa da minha estimulante vida social, todo santo dia costumo ir ao bar do Anselmo, localizado também na Santa Ifigênia, numa travessa cujo seu nome foge da minha memória agora, só sei que é perto do meu querido trabalho. Ultimamente a única coisa que posso pagar, é uma caipirinha de vodka, acompanhada de um churrasquinho no pão, com muito molho de alho.

Em um desses dias, há seis meses, conheci a Nanda, tinha acabado de chegar no butecão e cumprimentar a rapaziada, quando me dei conta da presença de uma mulher naquele ambiente fétido totalmente masculinizado. Sentei na minha mesa – sempre tive necessidade de marcar território nos lugares onde frequento -, observei a figura feminina sentada em uma das cadeiras do balcão, de baixo para cima: um sapato digno, uma boa calça social preta, uma camisa branca, um terninho cinza e, por fim, um olhar estranho, não consigo nem fudendo descrever ou definir com alguma palavra o que os olhos dela retratavam, era uma expressão complicada, o meu vocabulário não é muito vasto e eficiente, desculpe, caro leitor.

Após saborear a refeição majestosa, fui pagar os R$ 7,50 da minha comanda, tirei as notas amassadas e moedas empoeiradas do bolso, entreguei a pequena quantia ao Anselmo, e logo escuto uma voz diferente:

– Você também é adepto de uma caipirinha no final do expediente? Isso é uma válvula de escape diária pra mim, sabe? – palavras de uma possível alcoólatra, deprimida e carente a minha pessoa.

Após esse primeiro diálogo corriqueiro, muitos outros aconteceram entre nós, regados de caipirinha de vodka, pinga pura, cerveja barata e, nos dias frios, quem dava o tom da conversa era um vagabundo vinho tinto.

Sem ao menos perceber, todos os dias eu encontrava a Nanda, que já se tornava uma confidente fiel em pouco mais de dois meses; eu desabafava tudo com ela, realmente tudo, mesmo sem saber quem era aquela mulher de verdade, que por sua vez, também compartilhava sua vida cotidiana comigo todos os santos dias..

Continua...

Gostou do conto? Para ler o final desta estória acompanhe o Blog Sempre em Trânsito, um espaço recheado de contos com a cara de Sampa.

(*) Edson Nunes, como ele mesmo se define, é "aspirante a contista" e "viciado em fast-food". Tem 20 anos, estudante de jornalismo e como o leitor pôde ler, escreve muito bem. O Sempre em Trânsito é seu Blog, onde ele exercita sua escrita e sua criatividade. É o espaço onde estão registradas todas "as mutações incorporadas" em seu texto.

Comentários

Edson Nunes disse…
Que honra, Dilze! Fico extremamente lisonjeado pela sua atitude de propagar meu texto para os seus leitores.

É muito gratificante ter nossas produções, por mais singelas que sejam, expostas em outro espaço, ainda mais, quando este espaço retrata algo consistente e positivo.

Obrigado!
Edson Nunes disse…
Os desenhos são apenas ilustrações, as imagens eu procuro no famoso google mesmo. Sempre que possível, tento achar uma imagem real com o intuito do conto.
Dilze Lima disse…
Eu é que agradeço poder mostrar os "artistas urbanos" de Sampa neste pequeno espaço.
Sucesso!!

Postagens mais visitadas deste blog

Penha de França: o bairro mais antigo

Cidade Compacta - o que é isso?

SP 2040, Visão e Plano de Longo Prazo para Sampa